sexta-feira, 24 de julho de 2009

PLÁGIO EM "SMOKE ON THE WATER"???











Foi Antônio Brasileiro quem soprou essa toada!

Um dos riffs mais emblemáticos do rock guarda muita semelhança com os acordes de uma canção da bossa nova. As vinte mil almas que lotaram o Gigantinho no dia 18 de setembro podiam não saber, mas os três acordes mais esperados da noite já haviam sido bolados por Tom Jobim muito antes de eles nascerem. Apelidada "Durrh-Durrh-Durrh" antes de ter letra e título em meio ao frio, solidão e águias de Montreux, na Suíça, em 1971, "Smoke on the Water" tem sua introdução idêntica à de "Maria Moita", composta por Carlos Lyra e Vinícius de Moraes para o musical Pobre Menina Rica, em 1962.

Uma das lendas em torno do riff de Smoke on the Water diz que lojas de instrumentos musicais de várias partes do mundo proíbem que se toque essa introdução. É um dos primeiros sons que muito guri aprende a tocar na guitarra, porque dá pra fazer com a corda solta (0), terceira (3) e quinta (5) casas, dando uma leve escapada para a sexta: 0-3-5, 0-3-6-5, 0-3-5, 3-0. Maria Moita é semelhante, apenas com mais ginga.

Os membros do Deep Purple que vieram a Porto Alegre provavelmente também não sabiam que foi Antônio Brasileiro quem soprou a toada que Ian Gillan cobriu de redondilhas em dezembro de 1971. Quem veio com o riff foi o guitarrista Ritchie Blackmore, hoje transformado em menestrel pela Europa, tocando cantigas de inspiração medieval cantadas por sua atual mulher, Candice Night. Anos antes, fora Jobim a sugerir que Lyra incluísse no início de "Maria Moita" os três acordes mágicos. Em troca, Lyra apontou correções a serem feitas na música "O Morro Não Tem Vez", de Tom.

Sei não, Vinicius... esses maloqueiros não inspiram confiança "Há um oceano e nove anos de distância, tendo como paisagem não a Baía da Guanabara, mas o lago Genebra", Blackmore teve a inspiração dos três acordes mágicos, mas faltava título e letra para aquilo. O assunto foi providenciado em um show do maluquíssimo Frank Zappa, o mais criativo dos papas do rock dos anos 70. Ele fazia um show no Casino de Montreux com sua banda (os Mothers of Invention), quando alguém botou fogo no local.

O Deep Purple estava lá assistindo o show, a convite do agitador cultural Claude Nobs - até hoje responsável pelo eclético Festival de Jazz de Montreux e dono de uma vasta coleção de discos de jazz e música popular brasileira. Depois da apresentação dos Mothers, eles instalariam seu equipamento no cassino para gravar um disco. Zappa e sua trupe tocavam uma série de músicas, quando de repente todos param de tocar. "Fire! Arthur Brown, em pessoa!", gritou Frank, referindo-se a outro roqueiro maluco da época, para depois pedir que todos saíssem com calma do prédio.

"Pô, o Tinhorão já disse que essa tal bossa nova é que é plagiada do jazz americanoTão calma parecia a situação que Roger Glover, o baixista do grupo inglês, conseguiu caminhar até o palco, com o prédio em chamas, para dar uma olhada nos sintetizadores usados pelos Mothers, a grande novidade da época. Mais tarde, o cassino se transformava em cinzas. Bebendo uma cerveja em um bar com vista privilegiada com seus colegas, Glover olhou para a fumaça subindo sobre o lago Genebra, olhou para o céu e rascunhou num guardanapo: "Smoke on the water" - fumaça sobre a água. Quando ele propôs o título ao resto da banda, o vocalista Ian Gillan estrilou: "Vai parecer música sobre drogas, e nosso negócio é beber".

O título acabou passando, porém, com uma letra que rememorava os percalços da gravação do disco Machine Head, até hoje o mais conhecido do Deep Purple. Claude Nobs, citado na letra como "Funky Claude", como eles não apostavam muito na música, Smoke on the Water foi abrir o lado B do vinil.

Os primeiros a notar a semelhança entre Smoke on the Water e Maria Moita foram os DJs europeus. Nas pistas de dança, eles botavam uma versão technobossa de Maria Moita para logo depois lascar um certo Señor Coconut (N.E.: o maluco do Baile Alemán, com músicas do Kraftwerk em ritmo de salsa e cha cha cha) tocando uma versão caliente da música do Deep Purple. Com a repercussão do disco de technobossa de uma jovem cantora brasileira, um fã do Purple casualmente ouviu um trecho de Maria Moita e postou uma mensagem em um fórum especializado. Achava que a moça tinha plagiado a música de seu grupo favorito. Que nada. Havia possibilidade de ser o contrário, visto que o cancioneiro da bossa nova havia sido composto quase todo na década de 60.

"Lyra, acho que esses gringos ganharam uma grana com os nossos acordes"Carlos Lyra não conhecia Smoke on the Water quando foi contatado pelo Marca Diabo. Tampouco imaginava que uma música com uma introdução semelhante à da música que compôs com Vinicius, que ficara famosa na voz de Nara Leão, fosse um sucesso tão grande entre jovens de três décadas.

Com os dados hoje disponíveis, ainda é impossível dizer que Ritchie Blackmore tenha plagiado a música de Lyra, até porque o que caracteriza plágio são doze compassos iguais (o que não há). Ritchie é conhecido por seu faro para riffs, e sempre foi dado a fazer homenagens musicais - em 1974 ele usaria a melodia de "Fascinating Rhythm", de George Gershwin, para a poderosa levada de "Burn", e nos anos 80 ele colocou eletricidade na Nona Sinfonia de Beethoven, transformando-a na instrumental "Difficult to Cure". Contatada por e-mail, a assessoria de imprensa do guitarrista não concedeu entrevista ao Marca Diabo. A conexão, então, pode apenas ser suposta.

"Foda-se, vamos continuar a faturar. Rock n' roll!" É possível que Blackmore tivesse ouvido antes a bossa de Carlos Lyra, talvez casualmente com Claude Nobs, e a genial simplicidade da frase do maestro soberano tivesse ficado guardada no fundo de sua memória. Talvez ele imaginasse que ninguém notaria a semelhança. E, pela própria simplicidade da melodia, não se pode descartar o fator coincidência - se Jobim e Blackmore não inventassem, alguém inventaria aquela levada.

Com o registro da semelhança, os brasileiros ganham uma curiosidade a mais de que se orgulhar e os fãs de rock ganham um fato a mais para sua trivia. Não só: essa curiosidade demonstra como respeitar as fronteiras da música é uma atitude simplista demais.

Riff: o coração da música

Nada seria de Smoke On The Water sem o seu fabuloso riff. Mais viciante que Cocaine, mais heróico que Iron Man, a seqüencia de 4 notas de Ritchie Blackmore cravou (ainda mais) o nome do Deep Purple na história da música.

Blackmore afirmou em entrevista à CNN que se inspirou na quinta sinfonia de Beethoven para compor o famoso riff. Porém, há a hipótese de que "o original" seja brasileiro!

Em terras tupiniquins, Carlos Lyra e Vinicius de Moraes compuseram Maria Moita no ano de 1962, música lançada em 1964 no disco Pobre Menina Rica. Tom Jobim foi quem sugeriu os "acordes mágicos" de Maria Moita a Lyra, segundo uma matéria (excelente) do Marca Diabo. Com um ritmo brasileiro e algumas notas a mais, mesmo não caracterizando plágio, a bossa nova pôde ter sido a fonte utilizada por Blackmore.

Uma hipótese bastante comentada é a de que o guitarrista inglês teria escutado Maria Moita em Montreux, já que Claude Nobs é um grande apreciador e colecionador de música brasileira. A envolvente idéia de Tom Jobim teria ficado no subconsciente de Blackmore, de onde mais tarde nasceria para o mundo como um clássico do rock.

Marcelo Soares

3 comentários:

  1. Ótimo texto, parabéns! Muito interessante saber que (possivelmente) o Homem de Preto da guitarra teria se inspirado numa música daqui.

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  2. Incrível ler isso tanto tempo depois e saber que 2 excelentes bandas como LZeppelin e D Purple se valeram de plágios para se eternizarem.VIVA THE BEATLES!!!!!!

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  3. Incrível ler isso depois de tanto tempo e saber que 2 bandas excelentes se valeram de plágios para se eternizarem.Viva os BEATLES!!!!!!!

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