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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

2006 / 2017

ESTAMOS TODOS NO INFERNO ???? nada mudou.

A entrevista pelo traficante Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC e publicada na edição impressa do Jornal O Globo do dia 23 de maio de 2006 é uma obra de ficção. 
O autor é Arnaldo Jabor, que publicou o artigo naquele formato em sua coluna na publicação carioca com o título "Estamos todos no inferno".
Apesar de quase 11 anos depois, a pertinência e atualidade do assunto ainda é tanta que voltou a circular nas redes sociais Vale a pena recordar.
Estamos todos no inferno. Não há solução, pois não conhecemos nem o problema.

O GLOBO: Você é do PCC?
– Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível… vocês nunca me olharam durante décadas… E antigamente era mole resolver o problema da miséria… O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias… A solução é que nunca vinha… 
Que fizeram? Nada. 
O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a “beleza dos morros ao amanhecer”, essas coisas… Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo… Nós somos o início tardio de vossa consciência social… Viu? Sou culto… Leio Dante na prisão…

O GLOBO: – Mas… a solução seria…
– Solução? Não há mais solução, cara… A própria idéia de “solução” já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como?
Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma “tirania esclarecida”, que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC…) e do Judiciário, que impede punições.
Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios…). E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.

O GLOBO: – Você não têm medo de morrer?
– Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar… mas eu posso mandar matar vocês lá fora…. Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba… Estamos no centro do Insolúvel, mesmo… Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração… A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala… Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em “seja marginal, seja herói”? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha… Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante… mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas “com autorização da Justiça”? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.

O GLOBO: – O que mudou nas periferias?
– Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório… 
Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no “microondas”… ha, ha… Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.

O GLOBO: – Mas o que devemos fazer?
– Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas… O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, “Sobre a guerra”. Não há perspectiva de êxito… Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas… A gente já tem até foguete anti-tanques… Se bobear, vão rolar uns Stingers aí… Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas… Aliás, a gente acaba arranjando também “umazinha”, daquelas bombas sujas mesmo. Já pensou? Ipanema radioativa?

O GLOBO: – Mas… não haveria solução?
– Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a “normalidade”. Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco…na boa… na moral… Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês… não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: “Lasciate ogna speranza voi cheentrate!” Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno."

terça-feira, 31 de maio de 2016

Funk, Favela ....


FUNK ...... a cultura do estupro ......
TXT de Gustavo P. Cysneiros

As coisas escritas nos posts da internet (redes Sociais), as letras dessas “músicas” FUNK (se é que isso pode ser chamado de música) mostram uma cultura absolutamente aterrorizadora da visão da mulher na favela. Estes posts sobre ESTRUPRO (maio 2016) mostram a distância entre o “asfalto” e a favela. Mostram que a cultura da favela vai muito mais fundo nas entranhas infernais da degradação do ser humano do que a cultura do estupro. 
Na cultura dessa gente, mulher que presta é mulher que dá prá 30 sem reclamar e gosta disso. 
As crianças crescem ouvindo isso e vivenciando isso. Na mente desse povo a errada foi a menina (na visão deles mulher) que segundo eles mesmos quis “dar” para trinta mas não aguentou “a pressão”.

Lendo esses textos escabrosos, a impressão que fica é que a favela é um mundo à parte, que se julga ou à margem da Lei ou acima dela. Um caos talvez criado pela ausência do Estado, ou de algo maior, pela ausência de ordem, padrões de boa educação, altruísmo, etc ....

A desordem está na origem da favela e a favela se retroalimenta da desordem. Desordem que cria e faz crescer desordenado.

O pior que a favela pode causar a alguém é fazer com que alguém não queira sair dela e nisso ela é bem sucedida na maioria dos casos.

Você pode até tirar algumas pessoas da favela, mas talvez não consiga tirar a favela de dentro de algumas delas.

Mais do que um local, a favela é um estado de espírito em que as pessoas aceitam como normal se comportar como animais irracionais, como os animais reprodutores que tem que ser porque o instinto mais básico que existe é o de perpetuação da espécie, portanto o sexo tem que ser escrachado, exagerado, o sexismo cultuado à exaustão, porque a vitória da favela sobre a cidade depende da reprodução, depende da capacidade de se fazer sexo, para reproduzir ou só para se mostrar que é capaz de reproduzir, entendendo que a reprodução é uma vitória. Botar mais e mais milicianos na cidade. 
Favela é um estado de espírito em que as pessoas tem uma aceitação serena de que não tem poder sobre suas vidas, sobre dizer sim ou dizer não, sobre perseguir um objetivo e tentar ser diferente. 
Um local que te obriga a ser igual, igual nessa tragédia cultural cotidiana, igual na pobreza e na riqueza do tráfico. 
E ensina desde cedo porque as criancinhas aprendem as primeiras lições de sexo antes mesmo de conseguirem segurar um lápis. 
Criança aprende observando e o que as crianças observam na favela leva ao sexo, somando isso à desordem que retroalimenta a própria desordem, o resultado é imprevisível, mas na maioria dos casos catastrófico. inumanos!

Deus é ordem no caos.